Reflexão sobre a cibercultura - Pierre Lévy

A cibercultura, inteligência coletiva, sociedade em rede e o caos informacional do segundo dilúvio

Antes de debruçarmos aqui nas questões problemáticas acerca dos conceitos, penso que é importante conceituarmos aqui algumas palavras chave deste texto. A primeira é a noção de cibercultura, aqui utilizamos a ideia de Lévy (1999) que é o conjunto de técnicas, práticas, construção de conhecimento, atitudes, modos de pensar e agir no mundo, além de valores éticos e sociais que acontecem juntamente com o ciberespaço. Aqui salientar aqui que ciberespaço: “É o novo meio de comunicação que surgida interconexão mundial dos computadores”. Hoje poderíamos definir como computador qualquer aparelho que esteja conectado na internet e que produza e receba informações para e pelo usuário.

Quanto ao termo sociedade em rede, aqui utilizamos a noção de Castells (2003), o autor a descreve como uma sociedade onde a tecnologia evoluiu de tal forma que nos possbilitou viver em rede, compartilhar os sentimentos, ideias, valores e problemas além das fronteiras. A sociedade em rede nos possibilitou um dilúvio de informações. Levy (199), descreve este dilúvio como uma abundância de informação quase infinita e que é atualizada diariamente.  O autor nos explica que o segundo dilúvio, o da informação, é aquele onde não é possível obter um conhecimento total das técnicas e nem o domínio total. Isso gera as inteligências coletivas que nada mais é que a oralidade dos dias atuais, onde a troca de conhecimento se dá por meio de coletivos sociais que estão conectadas em menor ou maior grau a rede em tempo quase instantâneo.

Por fim é importante pontuar que o que chamamos de virtual nada mais é que a significação das coisas. Por exemplo, um dúzia de sons não pode fazer sentido para um falante da língua inglesa, mas pode significar algo real na língua inglesa. Logo, os sons são reais, mas a significação daquilo que é virtual. O mundo digital é real e não podemos dizer que é algo imaterial como a linguagem (Levy, 2013).

Agora que definimos boa parte dos conceitos, vamos exemplificar com 3 exemplos esta relação entre cibercultura, inteligências coletivas, sociedade em rede e o caos do dilúvio informacional:

- Protestos que ignoraram os meios de comunicação tradicionais e que surgiram através da troca de informações de diversas inteligências coletivas. Aqui coloco como exemplo a primavera árabe e os movimentos ambientais que surgiram através das redes e pressionaram, alguns ainda pressionam, governos e organizações a aceitarem suas ideias;

- A desinformação gerada pelas fake news em diversas eleições. Aqui ao contrário do primeiro exemplo, nós vemos identidades locais usando a rede para manter suas ideias xenofóbicas, excludentes e preconceituosas e não perder o domínio do conhecimento e do que é feito com o mesmo. Cabe apontar que aqui a educação na cibercultura é fundamental, pois só estudando as mudanças e o funcionamento da rede é que encontraremos mais formas de combater o uso desigual e mal intencionada da rede (Lêvy, 2000);

- O terceiro e último exemplo é a possibilidade de trabalhadores brasileiros trabalharem para empresas norte americanas ou europeias. Aqui vale pontuar a ideia de que devemos ter uma educação de rede e aberta para preparar este novo cidadão global que poderá estar no Brasil, trabalhando para uma empresa alemã, usando um software chinês e falando inglês que é a língua mais utilizada nesta rede.

Esta postagem tentou conceituar alguns termos e trazer algumas possibilidades que o caos informacional, o tal do segundo dilúvio, poderia trazer para nós que vivemos e que estamos em rede e presenciando a cibercultura todos os dias.

Citações:

Baldissera, Olivia. (21 de Setembro, 2021) O que é cibercultura para Pierre Lévy, filósofo francês que explica a digitalização do mundo. https://posdigital.pucpr.br/blog/pierre-levy#:~:text=Para%20Pierre%20L%C3%A9vy%2C%20a%20cibercultura,entre%20pessoas%20conectadas%20por%20computadores

Castells, M. (2003) A Sociedade em Rede. A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura, Vol. 1, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.

Lévy, Pierre. (1999). Cibercultura (1°edição). Editora 34

Lévy, Pierre. (2000). La cibercultura y la educación. Pedagogía y Saberes. 23. 10.17227/01212494.14pys23.31.

Lévy, Pierre. (2013). O que é Virtual? [Vídeo]. Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=sMyokl6YJ5U


Comentários

  1. Ótimos exemplos Deric!
    Nós vivemos na cibercultura e nem pensamos nisso, não é mesmo?

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    1. Com certeza!

      Os textos desta disciplina estão fazendo meu cérebro explodir de tanta reflexão hahahahahahah

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  2. Obrigada pela partilha colega!

    Sem dúvida que a leitura e reflexão deste livro contínua atual. Não basta ter acesso às tecnologias, é preciso uma educação digital, de forma a fazermos um uso ético e socialmente positivo.

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    1. Sim, porém creio que falta discussões sobre isso nas escolas e na sociedade em geral... Só fui ter acesso ao debate agora que estou na pós da UAB, pois nas outras universidades que passei, a discussão se baseia mais na escola, educação e sociedade do século passado (onde a rede não era tão importante).

      Agradeço pela leitura do meu post e pelo comentário! Boa semana!

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  3. Gostei dos exemplos e do conceito de virtual, para Lévy! Vou ter de revisitar o livro para compreender melhor a "virtualização" do ponto de vista de Lévy. Obrigada pela partilha!

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